Cultura: PédeXumbo investiga danças tradicionais do Alentejo para criar arquivo on-lline
Valsas mandadas da serra de Grândola, saias de Campo Maior e Castelo de Vide e bailes cantados de Castro Verde são danças do Alentejo, quase perdidas, alvo de um projeto de investigação para criar um arquivo on-line.
Iniciado este ano, o projeto “Arquivo das Danças do Alentejo” é promovido pela PédeXumbo – Associação para a Promoção da Música e da Dança, de Évora, com coordenação da investigadora brasileira Lia Marchi e de Domingos Morais, do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT) da Universidade Nova de Lisboa.
“Estamos num momento de viragem. Ainda estão vivos muitos idosos que se lembram dos bailes de antigamente e temos as danças tradicionais dos ranchos folclóricos”, realçou Lia Marchi, diretora e pesquisadora da “Olaria – Projetos de Arte e Educação”, no Brasil.
A investigadora explicou hoje à Agência Lusa que a iniciativa (http://arquivodancasalentejo.wordpress.com) pretende “documentar a divulgar repertórios de danças tradicionais” do Alentejo para que não “morram”.
Diana Mira, da PédeXumbo, referiu que o projeto quer recuperar um património cultural “desconhecido de muitos portugueses” e que ainda se mantém “vivo” muito por força dos “grupos folclóricos e das iniciativas das autarquias”.
“É um património que está a desaparecer”, mas “ainda há uma série de danças muito ricas”, afirmou, acrescentando que se pretende ainda desmistificar a “ideia de que, nesta região, não se dança”.
“Não há povo que não dance e há estudos que provam, assim como os registos que recolhemos, que aqui se dançavam viras, fados, valsas e o cante alentejano”, sublinhou.
Só que, ao contrário da música tradicional, pesquisada ao longo de décadas, por exemplo por Michel Giacometti ou Ernesto Veiga de Oliveira, comparou, a dança ficou de fora destes trabalhos de sistematização.
“Uma parte deste nosso património das danças” carecia “de uma investigação profunda em termos académicos”, até porque “há imensa recolha feita e descrições, normalmente por escrito, mas não estão editadas”, argumentou.
Por agora, já foi feita investigação bibliográfica, procurando “todas as referências sobre bailes que existem na literatura”, e também recolha de campo.
“Nos textos, há imensa gente a falar dos bailes, porque estão em todo o lado. Pega-se num livro e são muito raras as descrições sem essas referências”, adiantou.
Já Lia Marchi precisou que, dada a vasta extensão do Alentejo, a recolha de campo só incidiu, até agora, em três zonas, com a filmagem de ensaios de ranchos, entrevistas com idosos que se lembram dos bailes, festas populares e encontros para as pessoas dançarem as “modas” tradicionais.
Castro Verde, com o foco nos bailes cantados e de mastro, a serra de Grândola, que possui as valsas mandadas, já investigadas pela PédeXumbo, sobre as quais editou um documentário em 2008, e Castelo de Vide e Campo Maior, destacando as saias e repertórios de ranchos folclóricos, foram as áreas documentadas.
“A ideia é, em outubro, lançar um livrete com a descrição do contexto das danças e, em 2011, editar um documentário para levar a festivais de cinema documental”, revelou Diana Mira.
A PédeXumbo, disse, quer também promover oficinas para as pessoas aprenderem as coreografias, que até podem “ser matéria-prima para coreógrafos de dança contemporânea”.
A associação já avançou com candidaturas para dar continuidade ao projeto e abranger concelhos a sul do Tejo, “onde vivem muitos alentejanos que têm imensa informação” sobre as danças tradicionais. A ambição maior, a longo prazo, é alargar a iniciativa à generalidade das danças tradicionais de Portugal.
RRL.
*** Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico ***
Lusa/Tudoben
