COMISSÃO JUSTIÇA E PAZ DA ARQUIDIOCESE DE ÉVORA PREOCUPADA COM O DESPOVOAMENTO E A MIGRAÇÃO NO ALENTEJO

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COMISSÃO JUSTIÇA E PAZ DA ARQUIDIOCESE DE ÉVORA
PREOCUPADA COM O DESPOVOAMENTO E A MIGRAÇÃO NO ALENTEJO

Sua Exa. Rev.ª Dom Francisco José Villas-Boas Senra de Faria Coelho, Arcebispo de
Évora, por sua provisão de 29 de junho de 2019, nomeou a Comissão Arquidiocesana Justiça e
Paz, constituída por quatro personalidades da região, sob a assistência espiritual do Cónego
Silvestre Marques.
A nomeação desta comissão tem como objetivo principal assessorar e aconselhar o
Arcebispo de Évora, sobre assuntos relacionados com a justiça e a paz que ocorram
fundamentalmente dentro da área geográfica correspondente à arquidiocese. Neste âmbito
caberão certamente as problemáticas mais graves e atuais, que a todos nos assolam, devendo
ser analisadas de forma profunda e consistente.
Dando corpo ao fundamento da criação desta comissão, a mesma já reuniu por duas
vezes, para refletir, entre outras coisas, sobre a problemática do despovoamento no Alentejo e
ao surgimento, cada vez mais evidente, de migrantes na região. Só acompanhando de perto
estes fenómenos será possível perceber o que a Igreja pode eventualmente vir a fazer no
futuro.
No que ao despovoamento diz respeito, foi analisado o enquadramento sociocultural,
económico, educacional, infraestrutural, político e religioso, no passado e na atualidade, tendo
em vista identificar as razões pelas quais as pessoas saíram e saem da região. Neste domínio,
identificou-se que no passado, o êxodo da população deveu-se sobretudo à busca de melhores
salários e condições sociais, atendendo ao boom da indústria, do comércio e dos serviços nas
grandes cidades situadas geograficamente no litoral do país. Paralela e cumulativamente,
também se verificou um forte índice de emigração, na perspetiva de busca de uma melhor
expetativa de vida e estabilidade familiar. Pelas caraterísticas patentes da sociedade vigente e
nos padrões de vida atual, dificilmente a população voltará do litoral para o Alentejo, apesar
das evidentes alterações de qualidade de vida que foram alcançadas nas últimas décadas na
região Alentejana.
Relativamente à migração, constata-se que o Alentejo está a ser um dos seus grandes
recetores, não só a nível sazonal, mas também a título permanente, sobretudo para trabalhos
relacionados com a agricultura (com ênfase na fruticultura, na floricultura e na pecuária). A
migração em causa é fundamentalmente proveniente do Brasil, dos países de Leste (Roménia,
Moldávia, Ucrânia, etc.) e da Ásia (India, Paquistão, Nepal, etc.) em que estes últimos, além dos
problemas da língua, têm um conjunto de rituais e formas de vida (mais coletivo que individual
– também por razões monetárias) a que devemos estar atentos. Infelizmente, em muitos
destes casos, suspeita-se a existência de tráfico de pessoas com exploração das mesmas, quer
por máfias dos seus países de origem, quer pelas entidades empregadoras.
Em súmula, as caraterísticas da sociedade atual, designadamente quanto à sua forma de
ser e de estar a título individual e coletivo, a realidade da nossa distribuição administrativa, a
oferta que nos é proporcionada e a idiossincrasia específica vivida na região do Alentejo, são
fatores julgados imutáveis que lançam desafios aos diferentes decisores de

organismos/instituições do Estado no sentido de, com criatividade, pensarem em novas
abordagens que permitam, em tempo, inverter o status quo da atualidade no que respeita à
desertificação humana. Independentemente das políticas e dos incentivos que vierem a ser
criados, dificilmente se reverterá o despovoamento que se verifica na atualidade e, as antigas e
atuais gerações de cidadãos nacionais, dificilmente voltarão em massa às suas origens.
Neste contexto, resta-nos pouco mais que acolher e integrar, da melhor forma possível,
os migrantes que escolhem o Alentejo para viver e trabalhar. Neste particular, a Igreja pode ser
um parceiro privilegiado neste acolhimento, através dum acompanhamento próximo da
realidade laboral e social, ajudando, dentro da sua esfera de influência local/regional, a uma
melhor integração, principalmente através da projeção da visibilidade da sua realidade. A
desmitificação de alguns tabus relacionados com outras religiões, a ajuda na aprendizagem da
língua portuguesa, o apoio escolar e sanitário, o dar a conhecer os nossos costumes e rituais e o
apoio ao conhecimento de direitos dos migrantes são tarefas que podem fazer a diferença na
retenção de pessoas na nossa região e que o seu acolhimento seja o mais caloroso, humano e
fraterno possível. Sabemos que destas questões se tem vindo a ocupar o Departamento de
acção socio-caritativa da Diocese, nomeadamente, através da Cáritas. E, confiamos, que, agora
em articulação com a CJP da Diocese, se irá continuar esse trabalho.
Como reflexão final deixamos o repto de, numa primeira abordagem, denunciar/expor
situações anómalas e não compagináveis com os princípios e os valores da Igreja Católica e da
boa convivência entre pessoas (independentemente da sua raça, género, religião), propor
medidas, que venham a criar um normal e rápido processo de integração, passando
necessariamente pela agilização dos procedimentos e, dentro do possível, exercer pressão
junto de entidades/individualidades que tenham/possam influenciar a decisão ao mais alto
nível do Estado e das instituições públicas com responsabilidades nestes domínios.