Elvas: “Todas as Noites”, de Rui Serra, inaugurada no MACE

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A nova exposição temporária do Museu de Arte Contemporânea de Elvas (MACE), intitulada “TODAS AS NOITES”, foi inaugurada na tarde deste sábado, dia 29, com a presença do presidente da Câmara Municipal de Elvas, Nuno Mocinha; do colecionador António Cachola; do pintor Rui Serra, entre dezenas de convidados.

Nuno Mocinha, na inauguração desta exposição referia a visiblidade que o MACE tem vindo a adquirir no panorama da arte contemporânea nacional e internacional, salientando o facto de se dar “início ao programa comemorativo dos 10 anos do museu, com um artista de Elvas, e com esta exposição”.

Após a visita à exposição decorreu um diálogo entre diálogo entre Paulo Pires do Vale e Tomás Maia sobre “A Noite”, de participação livre e terá lugar na sala do Consistório do MACE. Em junho será ainda lançada uma publicação com textos inéditos do artista e da curadora.

O artista Rui Serra, natural de Elvas, neste projeto insinua-se como referência ao seu processo criativo, que ao longo de toda a sua obra tem vindo a questionar as relações entre as possibilidades da pintura, enquanto superfície de coincidência e dissidência do abstrato e do figurativo, e uma ontologia da vontade pictórica filiada no gesto mecânico.

A mostra tem curadoria de Ana Cristina Cachola e marca o início das comemorações dos 10 Anos MACE, instituição museológica que acolhe desde a sua fundação, a 8 de julho de 2007, a Coleção António Cachola, e onde fica patente até 25 de junho.

 
Nesta exposição individual, Rui Serra reúne um conjunto alargado de obras pertencentes à Coleção António Cachla, datadas de momentos distintos, que ocuparão o MACE em toda a sua extensão.
 
Para Rui Serra: “Todos os dias, sempre que pinto, uma noite cai sobre mim. Associo a noção de noite à metáfora do manto que cobre o dia, o véu que absorve e que retém todas as coisas. Essa noite considero-a uma metáfora do meu processo de trabalho, uma forma alternativa de ‘ver’ a realidade. […] Outra das características do meu processo de trabalho é a do fazer empírico, do trabalhar de modo físico e objectivo o que vivo no plano da imaginação. No meu caso, a execução manual do todo e das partes, o sentir literalmente a totalidade da pintura, torna-se uma tarefa quase mecânica. Tento no processo eliminar a marca da mão, como sinal de uma expressividade que considero ‘implosiva’, hiper-controlada, e simulacro de uma acção maquinal. Este rigor gestual considero-o a demonstração de um virtuosismo que recusa racionalmente o gesto explícito, tornando o fazer pictórico num acto ritualístico, de constante repetição, tendo em vista o saber-fazer sem falhas próprio de um mecanismo automático“, refere o pintor. 
 
Este processo, de que a noite é metáfora, ancora-se num sistema de valores de obrigatoriedade criativa que mostra e produz formas alternativas de ver o real. As diversas obras que formam a exposição apresentam-se em formatos distintos – pinturas, desenhos e maquetes, possuindo significação individual, mas concorrendo no seu conjunto para um entendimento ritualístico da pintura e da sua capacidade de produzir e criar realidade.
 
Para Ana Cristina Cachola, curadora, “Nesta exposição, o dispositivo da noite, na sua polissemia ocidental, é tomado enquanto tropo do gesto criativo de Rui Serra. A noite insinua-se aqui enquanto espaço e tempo (des)figurados de produção do real que permitem uma existência ritualística e rigorosa da pintura. Em cada obra apresentada, Rui Serra desvela o processo subjectivo de descoberta de verdades universais. Estas verdades não são, contudo, dogmáticas na sua relação com o espectador, servindo, isso sim, enquanto matriz de verdade possível e dependência hermenêutica daquilo que cada um vê, quer ou consegue ver. Tudo o que é visto é verdade para aquele que vê.”
CME