Artigo de opinião – As crianças têm de voltar a estudar, mas não como antes

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Por Jutta Urpilainen, comissária europeia das Parcerias Internacionais, e Henrietta H. Fore, diretora executiva da UNICEF

«Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo». Estas palavras, da vencedora do Prémio Nobel da Paz Malala Yousafzai, não podiam ser mais verdadeiras. Proporcionar às crianças de todo o mundo acesso a uma educação de qualidade é a única forma de podermos construir um mundo mais sustentável, equitativo e pacífico.

O encerramento das escolas por todo o mundo em virtude da pandemia de COVID‑19 causou enormes perturbações no setor da educação, tendo afetado mais de mil milhões de alunos.

Aqueles que já regressaram à escola deparam-se agora com novos problemas: uso de máscaras, distanciamento social, escassez de meios para a lavagem das mãos e receio de ficarem doentes. Tendo em conta as disparidades existentes no acesso às novas tecnologias, muitas destas crianças não tiveram a oportunidade de assistir às aulas a partir de casa nos últimos meses. Ficaram, deste modo, para trás, tornando o seu regresso à escola ainda mais difícil, tanto para elas como para os professores.

Porém, estas crianças ainda são, de certa forma, as que têm alguma sorte. Os problemas que enfrentam são muitíssimo menos graves do que o impacto catastrófico a longo prazo da falta de acesso à educação, nomeadamente nos países mais pobres ou afetados por conflitos ou crises.

Sabemos, de crises anteriores, que quanto mais tempo as crianças estão sem escola menos probabilidades há de virem a regressar. Sabemos também que as crianças que não vão à escola estão expostas a maiores riscos de violência, abuso e exploração. No caso das raparigas acresce ainda o risco de casamento ou de gravidez precoce. Ao causar a suspensão dos serviços básicos de saúde, nutrição, vacinação e proteção das crianças, a pandemia de COVID-19 veio expor muitas crianças a subnutrição, doenças, problemas de saúde mental ou abusos.

Em circunstâncias tão adversas, teremos, ainda assim, possibilidade de vencer a batalha pela educação das nossas crianças? A resposta não pode deixar de ser um rotundo «sim». Mas, para tal, como sucede com os alunos exemplares, precisamos de nos esforçar mais para atingir os resultados pretendidos.

Para fazer face à pandemia mundial, a União Europeia e os seus Estados-Membros – a Equipa Europa – já demonstraram a importância do trabalho conjunto para obter melhores resultados. Dado o longo historial de resultados positivos obtidos pelas parcerias que estabelecemos, a UE e a UNICEF podem, em conjunto, fazer a diferença de forma duradoura quanto aos resultados da educação em todo o mundo.

Importa adotar desde já algumas medidas para salvaguardar o futuro das crianças, tirando partido dos esforços já envidados e permitindo abrir perspetivas novas e inovadoras. Isto implica a realização imediata de fortes investimentos, que permitam às crianças mais vulneráveis reingressar logo que possível no sistema de ensino. Implica garantir que as escolas são seguras e que os professores dão resposta às necessidades dos alunos. Implica ainda reformular os sistemas de ensino, de modo a que os alunos possam adquirir as competências adequadas para o século XXI, nomeadamente competências digitais e espírito empresarial, preparando-os adequadamente para o novo mundo que irão ter pela frente.

Recentemente, pudemos assistir a mudanças surpreendentes, com muitos governos a proporcionarem educação pela Internet, televisão, rádio e até pelos telemóveis. Por exemplo, na Somália, estão a ser carregadas aulas pré-gravadas em tablets alimentados a energia solar que são disponibilizados às crianças. No Quirguistão, as crianças podem beneficiar da aprendizagem à distância mediante plataformas na Internet, três canais de televisão e duas aplicações de rede móvel gratuitas. No Vietname, alguns módulos e exames foram excluídos do programa de estudos, tendo outros sido adiados para o próximo ano letivo, permitindo assim aos alunos recuperar o atraso na aprendizagem ao longo do próximo ano e reduzindo a pressão académica e psicossocial.

Pelo que podemos ver, anunciam-se os primeiros sinais de retoma. Importa agora acalentá-los. É chegado o momento de reimaginarmos os sistemas de ensino, abraçarmos as novas tecnologias, eliminarmos os obstáculos e proporcionarmos sistemas de ensino modernos a todas as crianças.

Temos igualmente de colmatar o fosso existente em matéria de educação à distância. Importa tirar partido e investir no potencial da aprendizagem à distância, não só das competências de base ― como a leitura e a matemática ― mas também das competências digitais, empresariais e profissionais, para que os jovens possam ter acesso ao mercado laboral.

Acima de tudo, os orçamentos consagrados à educação devem ser protegidos dos cortes impostos pela crise económica mundial. A educação deve ser encarada como parte integrante do plano de recuperação da COVID-19: em vez de retirarmos verbas à educação, devemos efetuar um investimento ainda maior no reforço dos sistemas de ensino. A educação é essencial ao desenvolvimento humano e está subjacente a todos os investimentos efetuados pela UE na cooperação internacional, merecendo ser reforçada no quadro da ajuda ao desenvolvimento futura. «Reconstruir melhor» aplica-se tanto à educação como a qualquer outro setor.

A gravidade da presente crise exige uma resposta global e coordenada. A UE e a UNICEF querem estar na linha da frente da resposta a dar. A comunidade educativa deve delinear, em conjunto, um plano de ação global que proporcione a todas as crianças educação equitativa e de qualidade.

Estamos perante uma oportunidade única para sair desta crise sem precedentes, passando a fazer as coisas de outra forma e combatendo as desigualdades através de sistemas sociais mais sustentáveis.

Lutar por este nobre objetivo implica reconhecer que as coisas não podem ficar como estavam. Se retirarmos os devidos ensinamentos da situação em que nos encontramos, poderemos reformular e criar melhores sistemas de ensino, tanto para esta como para as próximas gerações.

 

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