Educação: Casal de Évora educa filha em casa, sem rotina do “leva e traz” da escola

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evoraÉvora – A “ditadura” dos horários escolares já regressou à rotina de quase todas as famílias com filhos, mas não entra na de Vítor e Sandra, casal de Évora que optou por educar Ísis em casa.

Uma escolha pouco vulgar em Portugal, mas legal desde que cumpridos requisitos prévios, adoptada para Ísis, de oito anos, pelos seus pais, o psicoterapeuta Vítor Rodrigues e a psicóloga Sandra Gonçalves, depois de “muita ponderação”.

A morarem numa quinta na periferia de Évora, habitada também por um cão e dois gatos, os pais procuraram um ensino adequado “à inteligência, necessidades e assuntos que realmente motivam” a filha, aluna do terceiro ano do primeiro ciclo do ensino básico.

O casal, empenhado em acompanhar de perto o percurso de Ísis e apologista de uma educação personalizada e multifacetada, com horários flexíveis e interacção com o “mundo natural”, admite ser privilegiado: “Nem todos os pais têm a nossa disponibilidade e preparação.”

“Queremos aproveitar a hipótese que temos e a investigação mostra que, quando a educação doméstica é bem gerida, não há problemas de socialização”, diz o pai, apoiado pela mulher: “Não queremos fechar a filha sobre nós, mas não abdicamos de participar e prepará-la para estar aberta ao mundo.”

Porém, os pais reconhecem também que os seus percursos escolares, com alguma desadaptação, influenciaram a opção pelo regime de ensino doméstico.

Sentada, com a mãe, num tapete colorido no chão da biblioteca familiar que é o palco das aulas, Ísis monta figuras geométricas de papel, embalada pelo som de fundo de Vivaldi, compositor que acompanha os trabalhos de matemática.

Concluída a tarefa, Ísis navega um pouco pela Internet no computador Magalhães e faz festas ao gato Teco, que se passeia pela divisão forrada de estantes com livros, na qual abundam jogos, desenhos e outras criações da menina, como a fase escrita numa parede: “A nossa quinta é o nosso barco.”

Os pais solicitaram o ensino doméstico à Direcção Regional de Educação do Alentejo, que o aprovou, atestando as suas competências pedagógicas. Ísis foi inscrita na turma de uma das escolas da cidade, mas foi Sandra que assumiu o papel de professora.

“A Sandra tornou-se num monstro pedagógico e aproveita os mais variados contextos para ensinar mais qualquer coisa”, brinca Vítor, convicto de que a filha tem “uma noção mais reflexiva sobre a razão das coisas”.

Ísis “tem consciência” de que o seu processo educativo é “diferente”, mas visita várias vezes a escola, para interagir com os “colegas” e até para que “ela própria valide as suas competências e o que aprende”.

“Não são dois mundos à parte”, frisa Sandra, afirmando que, em casa, há momentos para tudo. A par do estudo mais estruturado, os documentários ou canções da série infantil Hannah Montana, de que Ísis é “fã”, também servem para iniciar pesquisas e conversas.

“Tudo é material pedagógico”, insiste Sandra, realçando que a filha tem “muitos amigos” e várias actividades extracurriculares, como as aulas de karaté, que “adora”.

Esta aposta parental recusa que Ísis fique “hipnotizada por cada vírgula do livro de texto” ou “mais interessada em mostrar que sabe do que verdadeiramente saber”, e não a torna, no essencial, diferente das outras crianças.

Tal como os miúdos da sua idade, “constrói castelos de areia, salta nas poças de água e rebola no chão com o cão”, acentuam os pais, que, para já, equacionam ensinar a filha em casa até terminar o primeiro ciclo do ensino básico. “Daí por diante, está um pouco em aberto. Queremos agora é tornar este período particularmente enriquecedor para ela”, afirma Vítor.

Lusa/Fim.

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