Elvas: Fragmentos – Arte Contemporânea na Colecção Berardo.

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Nota Imprensa:

museu_arte_contemporaneaInauguração da exposição Fragmentos — Arte Contemporânea na Colecção Berardo, no próximo dia 24 de Setembro, sexta-feira, pelas 19h00, no Museu de Arte Contemporânea de Elvas.

Através da Colecção Berardo pode estabelecer-se uma cartografia das principais tensões e problemas que atravessam a arte contemporânea.

A partir de algumas das suas obras conseguem-se identificar as rupturas, prolongamentos e acontecimentos que protagonizaram aquela cena artística.

A selecção de obras que constitui a exposição Fragmentos — Arte Contemporânea na Colecção Berardo não obedece a nenhum princípio disciplinar, cronológico ou temático, mas estabelece entre os diferentes protagonistas da cena da arte (movimentos, artistas e obras) uma rede de prolongamentos e diálogos.

Comissário: Nuno Crespo.

Exposição patente até 23 de Janeiro de 2011.

Exposição apresentada em colaboração com o Museu Colecção Berardo.

“Qualquer obra de arte suscita divergências; a uns agrada, a outros não; a uns agrada menos, a outros mais. Esta dissociação não tem carácter orgânico, não obedece a um princípio […] No caso da nova arte, a disjunção produz-se num plano mais profundo do que aquele em que se movem as disjunções do gosto individual.  Não se trata de a maioria do público não gostar da obra jovem e a minoria sim. O que acontece é que a maioria, as massas, não a percebe.” José Ortega y Gasset, A Desumanização da Arte (1925).

É corrente encararem-se os movimentos artísticos contemporâneos com desconfiança: o público vê a arte do seu tempo como quem vê um truque de ilusionismo. Não confia nos seus olhos, vê nos artistas uma fonte de engano e encara as obras de arte como simples truques aos quais não correspondem quaisquer movimentos da inteligência e do pensamento.

Uma desconfiança que radica na complexidade da linguagem que os artistas utilizam e na forma como os modos habituais de ver arte estão sempre a ser questionados, a sofrer inflexões e variações.

As divergências de gosto de que Ortega y Gasset fala têm a sua origem nesta continua alteração dos paradigmas e quadros de valores estéticos: é próprio do contemporâneo não reconhecer a sua tradição e fundar um novo conjunto de gestos artísticos, como se estivesse a fazer tudo pela primeira vez. Desta forma, os princípios de que o público se poderia socorrer para poder avaliar, ver e gostar, destituem-se e perdem operacionalidade.

Pode perceber-se que o aparente divórcio que a arte contemporânea provoca não tem a sua origem numa disfunção do gosto ou numa degeneração dos meios artísticos, mas no fracasso dos modelos tradicionais de leitura, percepção e compreensão das obras de arte. É neste contexto que a questão das tais divergências deve ser enquadrada.

A presente exposição tem em vista estas divergências e posiciona-se no seu centro. O seu eixo é que a arte contemporânea se caracteriza por uma intensa variedade formal, material e conceptual, a qual não obriga a tomar partidos e a fazer disjunções, mas convida a estabelecer confrontos, perceber ligações e a transformar o olhar.

Trata-se de um percurso fragmentário e inconclusivo (não se pretende demonstrar qualquer tese) através de momentos essenciais na construção daquilo a que se chama arte contemporânea. Sem preocupações cronológicas e sem obedecer a nenhum princípio historicista, a exposição ambiciona provocar uma experiência intensa onde todas as linguagens, formatos e processos encontram lugar.

As relações entre as diferentes obras foram ditadas nuns casos por temas (paisagem, corpo,  processo, matéria, quotidiano), noutros pelos meios utilizados pelos artistas (pintura e vídeo) e, finalmente, pela relação que as obras conseguiram estabelecer com o espaço do Museu.

Duas obras são essenciais na construção desta espécie de panorama: o neón de Bruce Nauman (“Double Poke in the Eye II”, 1985) e a pintura de Balthus (“Portrait de femme en robe bleue”, 1935).

No primeiro caso, trata-se de uma obra que introduz o tema do diálogo e da multiplicidade de sentidos da linguagem humana. As diferentes coisas que se podem fazer com a linguagem (mentir, amar, revelar, jogar, insinuar, rezar, “poetar”, etc.) mostram estarmos num domínio em que a plasticidade e flexibilidade da atenção humana é essencial: é necessário estar-se sempre pronto a aprender novos sentidos, vocabulários e acções.

No segundo caso, trata-se de uma pintura que não parece constituir nenhuma ruptura relativamente ao modo habitual de fazer e ver pintura. A um olhar mais atento, a pintura revela-se cheia de acontecimentos pouco habituais: a expressão da mulher é a de quem foi surpreendida no seu quotidiano por uma presença indesejada (do pintor); a sua pose é mais própria da fotografia (dominada pela rapidez e instantaneidade) que da pintura (que obriga os modelos a longas e pacientes imobilizações); tem um livro nas mãos e esta actividade tão íntima torna-se pública. Esta questão da leitura mostra o carácter problemático da leitura de imagens e da arte em geral. Nesta exposição, é como se, inspirados pela acção daquela mulher de vestido azul, se colocasse a questão: “como ler a arte contemporânea?”

Assim, parte-se das divergências do gosto mostrando de que forma, quando se alteram os pontos de vista (formas de ler) e se sublinham certos aspectos, os gestos artísticos se tornam mais legíveis e, logo, mais compreensíveis.

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