Festival Terras sem Sombra em Almodôvar

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Pierre Hantaï, mestre supremo do cravo, interpreta Bach, Handel e Scarlatti à luz de velas

Após um arranque muito feliz em Santiago do Cacém, a 7.ª edição do Festival Terras sem Sombra de Música Sacra soma e segue. A 16 de Abril, pelas 21h30, a igreja de Santo Ildefonso, matriz de Almodôvar, recebe um concerto do cravista francês Pierre Hantaï, intitulado “Peregrinações”. O espectáculo gira em torno da música para tecla do século XVIII e incide em obras dos grandes autores deste período: Johann Sebastian Bach (1685-1750), George Frideric Handel (1685-1759) e Domenico Scarlatti (1685-1757).

Como era habitual na época setecentista, a actuação de Hantaï realizar-se-á numa atmosfera de quase penumbra, exclusivamente iluminada – a pedido do artista – por velas, o que reforça a singular espiritualidade de uma das mais belas igrejas maneiristas do Alentejo, dotada de uma acústica notável para o cravo. É o cenário perfeito para um espectáculo que marca a programação feita para este ano pelo novo director artístico do Terras sem Sombra, Paolo Pinamonti,.

Pierre Hantaï, génio da arte cravística

Nascido em 1964, Pierre Hantaï apaixonou-se aos 10 anos pela música de Bach. A influência de Gustav Leonhardt levou-o a estudar cravo, primeiro sozinho, depois com a orientação de Arthur Haas. Dois anos de trabalho em Amesterdão com Leonhardt levaram a que este o convidasse a tocar sob a sua direcção. Seguidamente colaborou com inúmeros músicos e maestros, entre os quais Philippe Herreweghe, François Fernandez, Marc Minkowski e Philippe Pierlot.

Apresenta-se sobretudo a solo, mas é convidado assíduo de Jordi Savall, Hugo Reyne, Sébastien Marq, Skip Sempé, Amandine Beyer, Olivier Fortin, Christophe Coin e Jean-Guihen Queyras para interpretar música de câmara. A sua extensa discografia inclui gravações recentes para a etiqueta Mirare: o primeiro livro do “Cravo Bem Temperado” e “Variações Goldberg”, de Bach, e três discos dedicados às “Sonatas”, de Scarlatti.

Pierre Hantaï é unanimemente considerado pela crítica como o mais importante intérprete da actualidade, ao nível internacional, do repertório barroco para cravo. É o “virtuoso”, por antonomásia, da complexa obra de Domenico Scarlatti. Tem também recebido diversos prémios pelas suas inovadoras (mas sempre surpreendentes) revisitações das obras de mestres de referência, como Bach, Handel e Soler.

Homenagem a Maria Bárbara de Bragança no seu tricentenário

Johann Sebastian Bach, George Frideric Handel e Domenico Scarlatti, três personalidades fundamentais do Barroco Tardio, nasceram por coincidência no mesmo ano. Possuem também em comum o facto de terem sido exímios intérpretes e compositores de génio no domínio da música de tecla, ainda que a produção que destinaram a instrumentos como o órgão, o cravo ou o clavicórdio ocupe lugares bem diferentes no seu percurso individual. Se hoje recordamos Scarlatti como um compositor indissociável do repertório para cravo (depois adoptado pelos pianistas), a música de tecla ocupa um lugar mais circunscrito na produção de Handel e assume-se como um dos pilares centrais no desenvolvimento de Bach enquanto compositor.

Scarlatti, na sua passagem pelo nosso país após ter sido contratado para o cargo de compositor da corte por D. João V em 1719, foi professor de cravo da infanta D. Maria Bárbara, que acompanharia após o casamento desta com o futuro rei espanhol, Fernando VI. Intérprete de grandes recursos, a princesa marcaria profundamente a evolução artística do compositor. A simbiose professor-aluna foi tão estreita que Scarlatti passou o resto da vida ao seu serviço, mantendo igualmente laços com Portugal – a primeira colecção de peças que publicou, os “Essercizi per Gravicembalo”, foi dedicada a D. João V em agradecimento pelo título de cavaleiro da Ordem de Santiago. Esta colecção, editada em Londres em 1739, deu-lhe fama internacional.

O concerto de Almodôvar presta homenagem, no tricentenário do seu nascimento, à infanta de Portugal e rainha consorte de Espanha D. Maria Bárbara (1711-1758), personalidade que influenciou a vida musical europeia durante boa parte do século XVIII. Pierre Hantaï escolheu para tal um leque de obras muito representativas das correntes mais influentes da época, desde alguns dos famosíssimos prelúdios e suites inglesas de Bach até uma suite de Handel e cinco sonatas de Scarlatti. São, todas elas, composições de uma profunda beleza espiritual, revelando a interacção entre as escolas italiana, alemã e ibérica que encontrou nas cortes de Portugal e Espanha um campo privilegiado de expressão.

Santo Ildefonso, monumento-chave do Maneirismo no Alentejo

A primitiva igreja de Almodôvar foi doada pelo rei D. Dinis, em 1297, à Ordem militar de Santiago. O edifício actual, traçado em 1592 pelo arquitecto Nicolau de Frias, é um exemplo harmonioso da tipologia de “igreja-salão”, com três naves, evidenciando grande sentido de unidade espacial. É um dos melhores exemplos da elegância da arte da Contra-Reforma que, sem deixar de ser fiel à austera espiritualidade da época, conheceu no Alentejo um carácter festivo, enaltecido pelo branco das superfícies meticulosamente caiadas.

D. João V mandou remodelar o monumento, incluindo a feitura de sumptuosos altares de talha, cuja construção se prolongou pelo reinado de D. José. Nos séculos XIX e XX realizaram-se outras intervenções, a última das quais ocorreu já na década de 1950. Data de então a pintura mural do baptistério, da autoria de Severo Portela. Formado pela Escola de Belas-Artes de Lisboa, foi um dos mais notáveis pintores do pós-Modernismo português. Devido à ligação a Almodôvar por laços de casamento, fez do Baixo Alentejo o epicentro da sua obra.

Pierre Hantaï ajuda a preservar espécies em extinção

Na manhã de domingo, 17, o cravista francês veste fato de borracha e calça galochas para ajudar a puxar uma rede de pesca de arrasto destinada ao controlo de espécies exóticas na ribeira do Vascão. Este curso de água marca a fronteira entre o Alentejo e o Algarve e é o reduto de endemismos ameaçados pela seca e pela poluição. Destaca-se aqui o saramugo (Anaecypris hispanica), de que restam pouquíssimos exemplares. Os cientistas dão-lhe a classificação máxima de risco: “criticamente em perigo”.

Da ribeira do Vascão passar-se-á à igreja de Santa Cruz, santuário regional muito conhecido a partir dos finais da Idade Média. Sito no Caminho para Santiago de Compostela, abriga, tal como as antigas casas dos peregrinos e outros edifícios contíguos, uma importante colónia de morcegos, de que fazem parte diversas espécies em perigo de extinção. Pierre Hantaï vai colaborar na colocação de abrigos para estes mamíferos voadores, cujo Ano Internacional se celebra em 2011.

Estas iniciativas pretendem alertar para a preservação da biodiversidade da bacia do Guadiana, do ponto de vista tanto da fauna como da flora, focando espécies que constam com o grau máximo de risco nos registos internacionais – o seu desaparecimento representa uma perda irreparável. A acção do Festival Terras sem Sombra para unir a música à salvaguarda da natureza em perigo resulta de uma parceria do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja com o Parque Natural do Vale do Guadiana e o Município de Almodôvar.

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