Tiago Abreu reage à decisão do Tribunal no processo dos cartoons

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Tiago Abreu

Comunicado enviado por Tiago Abreu a propósito da decisão do Tribunal no processo dos cartoons.

“Somos todos Charlie”, esta frase dita e usada por quase todos dizia respeito a um jornal que foi alvo de um brutal atentado por publicar cartoons. “Somos todos Charlie” queria no fundo dizer que defendemos a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão, ninguém deve morrer nem ser condenado por fazer aquilo que foi, segundo alguns no caso de Portugal, uma das grandes conquistas de Abril, precisamente a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa.

Chegou ao fim o longuíssimo processo dos cartoons que a Drª Elsa Grilo moveu contra o cartoonista António Cadete, Manuel António Torneiro e a mim próprio a propósito de uns cartoons, publicados no jornal “O Despertador” da autoria de António Cadete e que eu depois replicava no meu blog “Câmara dos Comuns”.

Chegou ao fim e aumentou a minha profunda convicção de que o nosso sistema judicial tem um longo caminho a percorrer, o nosso sistema judicial e quem dele faz parte terá muito que mudar para um dia ambicionar “ser Charlie”, ao condenar alguém por fazer sátira, o tribunal de Elvas condenou também Gil Vicente, Jorge Ferreira de Vasconcelos, António Ferreira, José Vilhena….enfim, o tribunal de Elvas condenou também o “Charlie Hebdo”. Manuel António Torneiro foi ilibado por morte, António Cadete e eu próprio fomos condenados.

Tenho a perfeita noção que o alvo principal era eu, embora tenha vindo a ser o que teve a menor pena. Lamento que para me atingirem politicamente tenham levado na “maré” um SENHOR, aliás, um GRANDE SENHOR da nossa cidade chamado António Cadete. António Cadete que é hoje diga-se, uma pessoa em final de vida, surdo, quase cego e com pouca saúde e que se viu enleado nos últimos 6 anos nas complicadas teias da justiça por……ter feito Cartoons!!

Sei que, infelizmente, o Sr. António Cadete terá sérias dificuldades em pagar a indeminização e as custas do tribunal pelo que, desde já digo, que pagarei do meu bolso a parte da indeminização que caberia a António Cadete. Passarei o cheque à Drª Elsa Grilo no próximo dia 26. Sei que entretanto um grupo de amigos e admiradores de António Cadete estará a organizar um evento de angariação de fundos que espero tenha uma participação elevada pois para além da indeminização à Drª Elsa Grilo há que pagar ainda milhares de euros de custas.

Quer eu, quer o Sr. Cadete tivemos defensores oficiosos, ou seja, nomeados pelo tribunal, pessoas de muito valor que se tiveram de confrontar com o reputado e caríssimo João Nabais, advogado pago pela Câmara Municipal e portanto com o dinheiro de todos nós. A desproporção de meios e recursos é enorme quando uns têm que se defender a suas expensas enquanto outros podem atacar a expensas de todos.

Umas últimas palavras para a Drª Elsa Grilo: Minha cara Drª, irá receber dinheiro de uma pessoa que vai sofrer para pagar o processo, eu pagarei parte porque sou, como sempre fui, solidário com aqueles que apenas cometeram o crime de desenhar cartoons, fui e serei sempre solidário com quem usa da liberdade de expressão que a lei lhe dá. A mim custa-me pagar porque me sinto injustiçado mas felizmente não ficarei melhor nem pior, para o Sr. Cadete esta será a maior machadada da sua vida, ficará, se as tiver, sem as poucas poupanças de uma existência e viverá o resto dos seus dias com pior qualidade de vida. Lamento profundamente.

Pelo meu lado assim que soube que os cartoons a estavam a incomodar retirei-os de imediato do blog, como bem sabe e como ficou provado em tribunal, e já tive oportunidade de lhe dizer que se se sentiu ofendida lamento tal facto.
Faço-lhe então um apelo: Já que vai privar um idoso das suas poupanças, do seu pé-de-meia, não fique com o dinheiro para seu uso pessoal. Por favor, pondere com seriedade entregar o dinheiro a uma ou mais Associações de cariz social do nosso concelho. Não use o pé-de-meia de um pobre reformado para seu benefício, pratique aquilo que defende todos os dias na sua página, faça o bem, ajude o próximo e doe o dinheiro a quem dele precisar, pelo menos dessa maneira o Sr. Cadete poderá sentir que o que lhe vai faltar a ele está a ser utilizado por outras pessoas que precisam.

Foi o final deste desgastante processo. Um processo que viu falecer um dos arguidos que por esta via desapareceu, felizmente, de cadastro limpo e tem até uma rua na cidade de Elvas, falo de Manuel António Torneiro. Tenho a consciência tranquila e agi sempre segundo ela, só lamento que se vá, provavelmente, penhorar a reforma do senhor Cadete para além de lhe irem ficar com as poucas poupanças, um artista como este merecia um final de vida bem mais digno!

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