Várias explorações agrícolas no Alentejo “não seriam viáveis” sem imigrantes

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Várias explorações agrícolas no Alentejo, sobretudo no concelho de Odemira, distrito de Beja, “não seriam viáveis” sem a mão-de-obra de imigrantes, alguns trabalhadores sazonais que, em muitos casos, trabalham “de sol a sol”.

    “Há explorações agrícolas em zonas rurais, onde os alentejanos, cansados do trabalho no campo, partiram à procura de outros trabalhos, que não seriam viáveis senão fosse a mão-de-obra de imigrantes”, disse à

agência Lusa o presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana, D. António Vitalino Dantas.O também Bispo de Beja, que falava à margem de uma conferência sobre imigração no Baixo Alentejo que termina hoje, apontou “sobretudo casos de muitas explorações agrícolas no concelho de Odemira, onde trabalham quase só imigrantes, alguns trabalhadores sazonais”.

    “A maioria das explorações agrícolas de Odemira funciona com quase cem por cento de trabalhadores imigrantes” e “os alentejanos são excepções”, disse à Lusa o responsável da delegação do Alentejo da Associação Solidariedade Imigrante (SOLIM).

    “É uma inevitabilidade económica”, frisou Alberto Matos, explicando que “o predomínio de monoculturas do olival e da vinha e de grandes companhias agrícolas” no Alentejo “implica o recurso a mão-de-obra intensiva”.

    “Os empresários, como não conseguem encontrar mão-de-obra na região, têm que recorrer a imigrantes”, continuou, precisando que no Alentejo “mais de 90 por cento” dos trabalhadores agrícolas são imigrantes, sobretudo brasileiros, ucranianos, búlgaros, romenos e moldavos.

    O concelho de Odemira, onde “55 por cento” dos imigrantes trabalham no sector agrícola, “é um indicador precioso do futuro” da agricultura alentejana, sobretudo com o avanço do regadio potenciado por Alqueva, salientou Alberto Matos.

    Para “muitos” trabalhadores agrícolas imigrantes no Alentejo “oito horas de trabalho é um eufemismo”, disse o responsável, referindo que “há quem trabalhe de sol a sol, como antigamente acontecia com os trabalhadores do campo alentejanos”.

    É também no concelho de Odemira, “particularmente nas estufas de flores e de frutas e em grandes explorações agrícolas”, que se registam “maiores fenómenos de exploração de mão-de-obra ilegal”, porque “há patrões que preferem como trabalhadores pessoas em situação irregular para ‘lhe tirarem a pele'”, denunciou Alerto Matos.

    “Quando se fecham as portas à imigração legal, escancaram-se as janelas para a imigração ilegal. É isto que acontece em Portugal e no resto na Europa”, lamentou Alberto Matos, defendendo “políticas activas de legalização e integração social dos imigrantes”.

    “Há falta de mão-de-obra, os patrões chamam imigrantes e eles vêm” e “se não se abrirem caminhos mais fáceis para a imigração legal, os imigrantes vão continuar a vir, mas pela via ilegal, abrindo campo para todos os fenómenos de exploração”, avisou.

    “A Europa, em vez de acolher, legalizar e integrar os imigrantes, promove a caça aos trabalhadores ilegais, mas não aos patrões que exploram o trabalho ilegal” e “como as polícias não têm capacidade para mandar os imigrantes ilegais embora, eles continuam por cá e só mudam de sítio”, disse Alberto Matos.

    “Desta forma, vai aumentar e cada vez mais o trabalho clandestino e outras formas de exploração”, lamentou.

    “Não devemos olhar a imigração como um mero fenómeno de mão-de-obra e os imigrantes como meros braços de trabalho, mas sobretudo como pessoas e também como trabalhadores qualificados”, defendeu Alberto Matos.

    No distrito de Beja, “há imigrantes qualificados, com formação em medicina e em enfermagem, por exemplo, que trabalham em obras e em explorações agrícolas”, precisou, frisando que, além de acolher e integrar, “devemos dar oportunidades a estes cidadãos estrangeiros de se realizarem no plano profissional”.

    O fenómeno da imigração no Baixo Alentejo “acentuou-se” no início deste século com a chegada de imigrantes de Leste e “evoluiu bastante nos últimos anos com a vaga de brasileiros”, que “já são a maioria”, lembrou Alberto Matos.

    Segundo dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, em 1980 havia “cerca de 180 imigrantes” a viver e a trabalhar legalmente no distrito de Beja, mas actualmente já são “quase 7.000”, dos quais “4.603 são cidadãos estrangeiros e os restantes são cidadãos comunitários”.

    A maioria dos imigrantes são brasileiros, seguindo-se ucranianos, moldavos e romenos, que trabalham, sobretudo, nos sectores da agricultura, construção civil, serviços e restauração.

    Além dos números oficiais, o SEF estima que exista “um número pouco significativo, na ordem das poucas centenas”, de população flutuante de imigrantes em situação ilegal a residir e a trabalhar no distrito.

   

    LL.

    Lusa/Tudoben

Comments: 1

  1. Tem que estar algo errado no mundo;exploram-nos ate a pele,sair-mos, para nao ser-mos mais explorados,emigrar-mos, como se fosse o fim da nossa exploracao…,agora ai, estao recebendo emigrantes e a exploracao continua.
    Tem que se insistir noutra forma de tratar os seres humanos.